De fato, a respota parece óbvia. Mas nem tanto.
Em essência, ícones em interface gráfica funcionam como simplificações de processos complexos.
A palavra ícone vem do grego “Eikon” que significa imagem, e de acordo com a definição semiótica de Charles S. Pierce, “ícones são signos que se relacionam com seu objeto por semelhança”.
Essa definição é suficientemente clara para lingüistas, semioticistas, filósofos, psicólogos psicanalistas e outros estudiosos. Não parece, contudo, muito esclarecedora para o resto de nós, aqui fora do universo técnico-teórico da comunicação. Minha pretensão (um tanto ousada), com esse breve texto, é explicar de maneira simples, porém objetiva, alguns conceitos básicos de semiótica aplicados à iconografia em interfaces de usuário.
Dois conceitos precisam ser colocados antes de continuarmos.
1- O que é Semiotica?
Semiótica é a Ciência, ou Teoria Geral dos Signos.
Os signos sempre fascinaram os pensadores e são estudados desde a Grécia antiga, passando pela Idade Média e pelos filósofos iluministas. Mas uma teoria geral dos signos só foi se firmar no final do século XIX e início do século XX. Foi nessa época que Charles Sanders Pierce, nos EUA ,e Ferdinand de Saussure, na Europa, começaram a produzir uma ciência dos signos. Tudo que se organiza ou tende a organizar-se sob a forma de linguagem (verbal ou não) é considerado objeto de estudo da semiótica.
2- O que é Signo?
Signo é qualquer coisa que em certa medida representa ou substitui algo para alguém em determinado contexto. A palavra “estrela” em um texto escrito, a luz que você enxerga no céu ou o som do fonema que substitui o objeto celeste estrela são signos que representam um astro flamejante a algumas centenas de milhares de anos luz daqui. O signo, portanto, representa o real, não é o real.
Posto isso, podemos dizer que de um ponto de vista semiótico, ícone em interface é uma imagem com alguma relação de semelhança entre a representação e seu objeto.
Quando falamos em imagem, é importante entender que imagem é sempre uma representação de um objeto, embora tratemos a imagem do objeto como se fosse o próprio objeto. Posso apontar para a superfície de um tubo de raios catódicos (um monitor) e dizer: “essa aqui é sua pasta de documentos”, embora não haja pasta alguma ali. O objeto a que estou me referindo, em última análise, é uma área física num disco rígido que pode guardar dados. Uma pasta de papel também serve para guardar dados, logo, a imagem da pasta serve como metáfora para facilitar o entendimento do uso da área do disco rígido.
Os ícones de interface podem ser classificados em: imagens, diagramas, metáforas e simbolos.
O ícone “printer” mostra a imagem de uma impressora, que se refere por semelhança direta ao objeto impressora do mundo real.
Os diagramas trazem relações internas e estruturais com o objeto. O ícone de tabelas em aplicativos de desenvolvimento de páginas web ou banco de dados são exemplos de diagramas.
A metáfora mantém alguma semelhança estrutural com seu objeto. O tradicional ícone “home” representa uma cadeia de significantes metáforicos relacionados à casa (“seu lugar, seu espaço, onde suas coisas então, para onde você retorna todos os dias etc.”).
Os símbolos, ainda que quando usados em interface sejam considerados ícones, os são para a semiótica uma categoria diferenciada. Símbolos são signos que se referem ao objeto em virtude de uma convenção.
Sinais de alerta, segurança, acesso para deficientes entre outros observam convenções. Ícones verdes tendem a comunicar aprovação assim como vermelhos tendem a ser proibitivos graças às convenções de transito. Mesmo alguns ícones de origem icônica podem com o tempo assumir características simbólicas. O ícone “save”, por exemplo, é comumente representado por um disquete que nos remete ao tempo em que guardávamos nossos arquivos nesse tipo disco. Com a evolução dos hard disks manter seus arquivos em discos flexíveis deixou de ser o método mais usual. A verdade é que atualmente a maioria dos computadores modernos não incluem mais leitores para disquetes.
Talvez, para nossos dias, um lápis escrevendo em um HD funcione como uma representação melhor.
De qualquer maneira por conta de um pacto social subjetivo, todos aceitam que o ícone para a função salvar seja representado simbolicamente por um disco flexível (disquete).
Everaldo Coelho
Referencias:
Semiótica & literatura - Décio Pignatari
O que é Semiótica - Lucia Santaella
Icon Design - Steve Caplin





Legal, Everaldo! Bom saber que você está blogando.
Semiótica é um assunto abstrato, mas você soube ligar à prática de design de uma forma bem prática.
Gosto de pensar os ícones de interfaces, em especial os que abrem programas, como índices e não ícones. Os índices possuem uma relação de contiguidade com o objeto referente. A ponta do iceberg é um índice do iceberg. A fumaça é um índice do fogo. O “ícone” do programa é um índice do programa.
Sendo assim, o “ícone” do programa tem papel fundamental na identificação do programa. É o “ícone” do programa que vai indicar a identidade do programa, o que ele faz, o que representa e etc.
Para se aprofundar na Semiótica das interfaces, sugiro o livro da brasileira Clarice Sieckenius publicado pela MIT Press: The Semiotic Engineering of Human Computer Interaction.
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