Mês passado tive a honra de ser entrevistado pela revista Mac+. Leia abaixo na integra.
- Para quais empresas você trabalha atualmente? Que trabalhos desenvolve? Você atua só com ícones?
Atualmente eu sou diretor de arte no Yellow Icon Studio e também consultor de design da Linspire.inc de San Diego.
O Yellow é esta localizado em Curitiba, mas nasceu global. Como diria Aristóteles “não somos nem gregos nem atenienses somos sim, cidadãos do mundo”. Atendemos grandes, medias e pequenas empresas em todo o planeta. Temos uma grande lista de clientes em quase 30 países incluindo empresas como Apple, AT&T, Symantec, Roxio, Parallels, Bell Canadá, O2, Siemens, America Online e muitas outras.
Nosso “core business” é o design de interface e iconografia. Mas fazemos quase todo tipo de trabalho criativo, design gráfico, webdesign, ilustração, animação, publicidade, etc.
Apesar da maioria de nossos clientes serem empresas de tecnologia, atendemos também outros setores. Ano passado fizemos um projeto para uma companhia especializada em energia nuclear, outra em automação portuária. Dias atrás, recebemos um pedido para criamos a identidade visual de uma rede de lavanderias na Itália.
Essa diversidade de segmentos, culturas, geografias, nacionalidades torna nosso trabalho bastante excitante.
- De onde surgiu o desejo de ser designer e trabalhar com arte? E como você acabou se voltando para a área de ícones?
Meu pai foi mestre de obras. Quando eu era ainda muito pequeno o assistia pegar os pratos e panelas da minha mãe e usar como curva francesa pra desenhar numa folha de caderno velho os seus projetos de “escadas redondas”, como ele costumava chamar. Penso que foi ali que nasceu meu interesse pelo desenho e a minha fé nos sonhos do meu pai.
Meu primeiro emprego “oficial” foi em 97 com incompletos 18 anos. Como desenhista projetista no escritório do decorador Arnaldo Malucelli. Nessa época pouca gente usava computadores pra projetar moveis, e eu não era exceção. Em 98 fui indicado pelo Dirceu Veiga Que estava deixando a Editora Dom Bosco para assumir seu lugar como ilustrador de livros didáticos. Foi lá que entrei em contato pela primeira vez com um PC. Logo que aprendi a operar o básico da maquina e do photoshop 3, resolvi comprar um equipamento para ter em casa. Com a minha experiência quase zero em informática fui a uma loja fazer orçamentos e fui apresentado pela primeira vez a um Macintosh, ainda que eu não soubesse a diferença até por que na época os Macs eram tão beges e sem graça quanto qualquer PC fuleira. Não comprei, é claro. Contudo fiquei apaixonado pelo ícone de folder azul.
Meus primeiros experimentos com iconografia não foram nada sofisticados. Era só uma tentativa boba de substituir a pasta amarela do Windows.
Em 2001, Microsoft e Apple lançaram novas versões de seus sistemas operacionais. O Linux, que já era sucesso em servidores, começava a despontar como desktop. Eu havia experimentado algumas Distribuições de Linux e estava realmente impressionado. Diferentemente do MacOS ou o Windows, ele tem diversas interfaces gráficas que rodam sob um servidor gráfico, o X11. Entre elas o Window Maker, um clone da interface do Next Steep criado pelo brasileiro Alfredo Kojima e o Gnome me parecia fantásticos. Mas foi o KDE (K Desktop - atualmente a principal interface gráfica do Linux) foi a que mais me cativou. Não tanto pelo visual, mas pela funcionalidade e facilidade de uso. A interface dele se parecia muito com o Windows 98 o que para mim, naquele tempo, era tanto um facilitador de uso quanto um defeito estético.
Foi nesse contexto que comecei a criar o tema de ícones que chamei de Crystal.
No mesmo ano fui convidado a me juntar ao departamento de marketing da Conectiva SA, atual Mandriva. Lá o Helio Castro desenvolvedor do KDE e colega de trabalho se interessou pelos meus ícones e foi quem inicialmente divulgou algumas artes no kdelook.org. Os ícones tiveram grande aceitação e mais tarde o tema seria adicionado ao KDE oficial.
Hoje ícones do Crystal Project são usados em milhares de softwares, web sites e outras mídias em todo o mundo.
- Qual seu maior trabalho? Teve algum que você não gostou?
Já fiz muita coisa, eu não costumo categorizá-los como grandes ou pequenas. Faço melhor possível com os recursos disponíveis (tecnologia, tempo, etc.).
Nesse momento estamos trabalhando em um projeto com a Siemens alemã. O sistema exige que os ícones sejam vetoriais e com um número limitado de cores. Esteticamente, por exemplo, eles são inferiores aos ícones que desenhamos para MacOSX e superiores aos que fazemos para interfaces de celular. Sistemas e interfaces têm muitas limitações diferentes, mas exigem a mesma demanda de conhecimento intelectual e investimento criativo. Por essas e outras razões é difícil classificar um projeto.
De um modo geral eu sempre gosto mais do último projeto que estou fazendo. Isso não quer dizer que não gosto dos antigos, é apenas evolução natural.
Recentemente trabalhamos na interface do Toast 8. O projeto chegou com uma time line apertadíssima. Eu realmente adorei os ícones e eles foram muito bem aceitos pelo cliente. Além dos ícones nos redesenhamos a interface toda do software. Remodelamos tudo. Melhoramos a usabilidade, usamos e abusamos dos recursos de core image, core vídeo e core animation do MacOSX. Colocamos os ícones dispostos como um “Dock” na lateral esquerda da janela mãe, transparências, barras de status brilhantes e translúcidas. Foram dois meses de trabalho intenso. A nova versão precisava estar pronta para a MacWord. Aconteceu atraso no desenvolvimento do código e os programadores precisaram limar alguns recursos. O resultado é a interface que você conhece. Mesmo assim muita gente gostou. Infelizmente eu não. Além dos ícones pouca coisa ficou da interface que criamos.
- Qual seu método de trabalho? Quais os passos, desde a idéia até o produto final? Que softwares você usa? Faz alguma coisa à mão?
O primeiro passo, num projeto de iconografia, naturalmente é o briefing. Extraímos do cliente o máximo de informações possíveis. Objetivos do projeto e perfil dos usuários, incluindo características socioculturais e hábitos específicos são informações essenciais.
Com o briefing em mãos, reunimos a equipe de criação para um primeiro brainstorm. Ícones em interfaces gráficas são simplificações de processos complexos. E funcionam ligando uma representação a um conceito. Esse é momento em que a equipe busca compreender os conceitos por trás dos processos e sugerir possíveis representações. Tudo é documentado que e enviado para apreciação do cliente. Esse processo pode ser feito tantas vezes quanto necessárias para encontrarmos a conceitualização ideal. Nenhum desenho é feito nessa fase.
Conceitos definidos e aprovados. O terceiro passo é a definição do estilo. No caso de ícones para softwares que serão usados em sistemas operacionais específicos. Observamos os manuais de identidade criados pelos fabricantes. Apple e Microsoft, por exemplo, fornecem Guide Lines que regulam a quantidade de cores, perspectiva, iluminação e outros detalhes.
Também é nesse momento que definimos os parâmetros da família de ícones. Muitas vezes um projeto é desenvolvido por mais de um artista. Essas definições são necessárias para dar unidade ao design.
Ícones de acordo com a semiótica são representações que se relacionam com seu objeto por semelhança. Subtipos de ícones são: as imagens, os diagramas e as metáforas.
Em GUI (General User Interface) ainda há mais uma categoria de representações bastante utilizada: Os símbolos que conquanto, usados em interface como ícones são para a semiótica uma categoria diferenciada.
A psicodinâmica das cores também merece atenção especial nesse momento.
A definição do conceito de família deve considerar três pontos básicos que devem ser similares em todos os ícones. 1. Categoria semiótica, 2. Tabela das cores e 3, rendering.
Agora com todas essas informações definidas chega o momento de iniciar a desenhar. Criamos primeiramente wireframes com um nível mediano de detalhes que são enviados ao cliente. Esses wireframes podem ser feitos a mão ou em vetor.
Após aprovação do cliente iniciamos a fase de render. Normalmente os ícones são criados em vetor no Adobe illustrator e depois exportados e finalizados no Photoshop.
- É difícil trabalhar na área de ícones? O que é preciso para sobreviver nesse mercado?
Na verdade ícones são apenas uma parte do trabalho, certamente a mais visível. O que fazemos, na verdade, é design centrado nas pessoas e não no objeto.
Junte humanismo, psicanálise, semiótica e design. Você terá “design de interação”.
A expressão humanismo se refere genericamente a uma série de valores e ideais relacionados à celebração do ser humano. O termo, porém, possui significados diversos, muitas vezes conflitantes e eu não pretendo aprofundar esse assunto. Basta dizer que quando o filósofo grego Protágoras a partir da reflexão cunha a frase: “O ser humano como medida de todas as coisas.” Ele lança as bases sobres as quais se definiria humanismo.
Nosso trabalho é projetar interação humano-computador, tendo o ser humano como medida e direcionador de todas as coisas.
Com o advento da chamada web 2.0, esse design focado no usuário tem sido bastante comentado.
As dificuldades desse mercado não são diferentes das de outros segmentos. É importante você se manter “antenado” e atualizado. Aqui como em qualquer outro segmento a curiosidade é o grande valor do profissional.
- Conte um pouco de você. Onde cresceu, qual sua formação profissional, os lugares em que trabalhou…
Eu nasci em Curitiba no Brasil. Tenho 29 anos e sou pai da Milena de 3 anos.
Trabalhei como projetista de móveis em 1997 e como ilustrador de livros infantis até 2001 quando comecei como designer. Nunca fiquei muito tempo em um emprego. Não gosto da segurança que a comodidade oferece. Prefiro por tudo a perder pelo menos uma vez por semana. Me faz sentir vivo.
Poderia dizer que sou autodidata se isso fosse possível, de fato ninguém aprende sozinho. Leio bastante, mas não freqüentei muitos cursos
Penso que saber com sabedoria é saber pelo menos duas coisas: Em primeiro lugar o saber com sabedoria é saber não saber. Ou seja, o que sei é que nada sei.
Em segundo o sábio saber entende que “só o simples sabe saber com sabedoria” por uma razão maravilhosa: só gente simples sabe saber sem ter que provar que sabe.
Você já deve ter lidado com gente que parece fazer questão de mostrar que sabe mais. Não quero ser esse tipo de pessoa, prefiro a simplicidade dos que sabem não saber.
Não gosto muito de falar sobre minha formação (até por que não é grande coisa). Mas para que ninguém se sinta frustrado. Sou formado em teologia e atualmente sou estudante de psicanálise. Também sou aluno do curso de Design da Lemmon School em Curitiba. Que alias é fantástico. Recomendo!
- Você gosta do que faz? É realizado profissionalmente?
Trabalho com uma equipe de pessoas maravilhosas, num ótimo ambiente de trabalho com equipamentos de ultima geração. Temos tênis de mesa e Play Station na sala de criação, armários recheados de guloseimas, horário flexível, seções de cinema grátis e duas vezes por semana assistimos os últimos episódios de Lost e Heroes no telão.
Isso tudo é fantástico e não foi fácil chegar aqui. Investimos muitos sonhos pra isso se tornar real.
Aprendi pela experiência que existe uma grande diferença entre sonhar e fantasiar. Fantasia é devaneio, é sentir a “saudade de mim lá” é se imaginar num lugar diferente, que pode ser geográfico ou social. Não importa. O sonho é diferente. Sonhos te engravidam de uma realidade, te consomem por dentro, se alimentam de tudo que há em você. E aí se você ama a Deus, ao próximo e respeita a vida, tudo ganha sincronismo e conectividade. Até o cenário mais absurdo se transforma numa conspiração do bem. Você aprende a pegar as pedras do caminho e construir o caminho das pedras.
Sim, me sinto bastante realizado. Mas, não. Não vou parar por aqui.
- Você se vê fazendo outra coisa? Trocaria de carreira?
Eu realmente gosto do que faço. Não sei se mudaria. Eu amo as cores, as formas e sobre tudo amo a maneira das pessoas sentirem e perceberem o mundo.
Mas como todos sabem, design e a arte não andam de mãos dadas. Sinto falta de produzir algo mais autoral. Eu tenho alguns projetos em médio prazo. Dig’s Family, uma família de personagens que criei para tirinhas. E uma coleção de livros infantis que se chamará “A cor e a poesia”.
Além da paixão pelo design eu tenho outro grande amor: A psicanálise. Se hipoteticamente eu fosse fazer outra coisa possivelmente estaria ligada a isso.
- Muita gente não gostou dos ícones do novo Adobe CS3. O que você pensa a respeito?
Os “ícones” do CS3 são na verdade “símbolos”. Símbolos conceitualmente são representações baseadas em convenções o que os difere drasticamente do conceito de ícones que são representações que se relacionam com seu objeto por semelhança.
Em interfaces gráficas os ícones são simplificações de processos complexos e funcionam ligando uma representação a um conceito. Um belo exemplo de ícone é que representa o editor de texto no MacOSX. A imagem de uma caneta sobre uma página de papel escrita remete a uma cadeia de significações que comunica exatamente o que faz o software.
Eu não consigo perceber onde o Ps do Photoshop, por exemplo, comunica o que ele faz. Fico curioso, a respeito da tradução para o árabe ou chinês. Devem ser no mínimo divertidas.
Eu não gosto dos ícones da nova suíte da adobe pelo simples fato de eles não serem ícones. Eu gosto de minimalismo, especialmente por que o mínimo comunica. Mas esse não parece ser o caso.

Salve, salve, Everaldo! Adorei a sua entrevista com a MAC+ deste mês! Espero receber mais notícias como essas no seu feed.
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